Depois de anos de construção, escuta e expectativa, a comunidade da Reserva Extrativista Lago do Cuniã vive um novo momento. O salto iniciado em 2025, com organização comunitária, formatação de experiências e um lançamento histórico na Expo Turismo Rondônia, ganhou novas camadas em 2026. Agora, com produtos lapidados, capacitação, sustentabilidade, governança fortalecida e aproximação com o mercado, o Cuniã se prepara para ocupar um espaço de destaque na ABAV Expo, em São Paulo — levando consigo muito mais que um destino: leva um modo amazônico de viver, receber e conservar.
Há lugares que impressionam pela paisagem. Outros conquistam pelas pessoas. Na Reserva Extrativista Lago do Cuniã, em Porto Velho, Rondônia, as duas coisas caminham juntas.
Águas que refletem o céu amazônico, igarapés, floresta, fauna abundante, gastronomia, pesca, extrativismo, histórias e uma comunidade que aprendeu a construir sua vida numa relação profundamente conectada ao território. O ICMBio registra atividades comunitárias como produção de farinha, açaí e castanha-do-brasil, além do manejo sustentável de recursos naturais, como o pirarucu, o jacaré, dentro de uma lógica em que conservação ambiental e geração de renda precisam caminhar lado a lado.
Mas talvez o maior atrativo do Cuniã não possa ser fotografado.
É a própria comunidade.
E é exatamente aí que começa a essência do Turismo de Base Comunitária — TBC.
No Cuniã, a comunidade não está dentro do produto turístico. Ela é protagonista dele.
Turismo de Base Comunitária não significa simplesmente levar turistas para conhecer uma comunidade tradicional. Significa inverter a lógica convencional: é a comunidade que participa das decisões, organiza a oferta, define como deseja receber, determina o que pode ou não fazer parte da experiência e participa diretamente dos benefícios gerados pelo turismo.
Em uma Reserva Extrativista, esse princípio ganha ainda mais significado. Segundo o ICMBio, as RESEX existem para proteger os meios de vida e a cultura das populações tradicionais, conciliando-os com o uso sustentável dos recursos naturais. A visitação é possível, mas deve respeitar os interesses locais e os instrumentos de gestão da unidade.
No Cuniã, portanto, o turismo não deve substituir o modo de vida ribeirinho. É o modo de vida que dá sentido ao turismo.
O visitante chega para conhecer um território vivo. Para ouvir histórias de quem nasceu ou construiu sua vida ali. Para compreender relações com a floresta e com as águas. Para experimentar sabores locais, navegar, observar a fauna, conhecer práticas produtivas e perceber que conservação, cultura e geração de renda podem fazer parte da mesma experiência.
Essa compreensão não surgiu em 2025. A história é muito mais longa.
O Plano de Desenvolvimento Sustentável do Turismo de Base Comunitária da RESEX registra que uma proposta de TBC já havia sido apresentada e aprovada pelos moradores em 20 de abril de 2013. A execução inicial começou em 2014 e, em dezembro de 2016, a versão preliminar do plano foi submetida à validação dos moradores nos quatro núcleos comunitários. Anos depois, novas ações de estruturação e capacitação continuaram sendo desenvolvidas com participação do poder público, ICMBio e parceiros.
Ou seja: o que hoje começa a ganhar mercado é resultado de anos de amadurecimento, tentativas, planejamento e expectativa.
2025: o ano em que o projeto acelerou
Foi em 2025 que essa longa trajetória entrou em uma fase decisiva.
Em junho, uma oficina de Turismo de Base Comunitária reuniu moradores, instituições e órgãos ambientais para discutir experiências, roteiros, conflitos, responsabilidades e, principalmente, governança comunitária. Os moradores trabalharam propostas envolvendo trilhas interpretativas, vivências com pescadores, educação ambiental e observação da fauna e flora. Ao final, um dos encaminhamentos foi justamente organizar um grupo dedicado ao turismo no território.
A partir dali, o trabalho ganhou velocidade.
O Sebrae em Rondônia avançou na organização técnica e comercial do destino. A própria instituição registrou que, em 2025, o trabalho envolveu governança, roteirização, estruturação de experiências, precificação e preparação para acesso ao mercado.
Foi também nessa etapa que o consultor Sidnei Varanis, especialista em Turismo de Base Comunitária, passou a acompanhar diretamente a comunidade. Em agosto de 2025, o Sebrae/RO descreveu sua entrada no projeto como parte do “sprint final” para preparar a RESEX para chegar ao mercado com organização, qualidade e visibilidade.
Não se tratava de criar artificialmente um produto turístico.
Tratava-se de organizar o que a comunidade já tinha de verdadeiro e extraordinário, transformando saberes, paisagens, histórias, gastronomia e modos de vida em experiências que pudessem ser ofertadas sem perder autenticidade — e, principalmente, sem retirar da comunidade o comando sobre o processo.
Outubro de 2025: um lançamento histórico em Porto Velho
Depois de meses de trabalho, chegou um daqueles momentos que ajudam a marcar a história de um projeto.
Entre 22 a 24 de outubro de 2025, Porto Velho recebeu a Expo Turismo Rondônia. E a RESEX Lago do Cuniã esteve entre os grandes destaques.
No dia 23, foi realizado o lançamento oficial da Rota RESEX Lago do Cuniã. O Sebrae também estruturou rodada de negócios, manteve um espaço de promoção da reserva em parceria com a Associação de Moradores e, na sequência, participou da realização de um famtour que levou operadores e profissionais do turismo para vivenciar o território. Tudo com o apoio do consultor.
Era muito mais do que apresentar um novo roteiro.
Era uma comunidade amazônica dizendo ao mercado: “estamos nos preparando para receber vocês — do nosso jeito, respeitando nosso território e nossa identidade.”
A participação de operadores, agências e profissionais especializados durante o famtour permitiu que o Cuniã deixasse de ser apenas uma promessa ou uma imagem bonita em uma apresentação. O produto passou a ser experimentado, analisado, discutido e conectado ao mercado.
2026: não era hora de começar de novo. Era hora de lapidar a joia.
O trabalho de 2026 partiu de uma premissa importante: o Cuniã já possuía uma história, uma identidade e um produto. Era necessário aprimorar.
Novas estratégias passaram a atuar sobre sustentabilidade, qualificação dos empreendimentos, governança mais efetiva, organização comercial, acesso a mercado e posicionamento.
Em agosto, o Sebrae Nacional e o Sebrae em Rondônia incluíram a rota em uma iniciativa voltada à sustentabilidade e competitividade, envolvendo comunidade, Prefeitura de Porto Velho, ICMBio, empresários e trade turístico. A ação também iniciou a preparação do território e de empreendimentos para adoção de boas práticas e referenciais internacionais de sustentabilidade.
Paralelamente, o trabalho de consultoria com Sidnei Varanis teve continuidade em 2026, agora com uma missão ainda mais específica: lapidar comercialmente aquilo que havia sido construído.
Foi um período dedicado à simplificação e organização dos produtos, revisão de preços, políticas comerciais, relacionamento com agências e operadoras, estruturação dos processos de reserva, definição de responsabilidades, qualificação da governança e aproximação direta com empresas do mercado turístico.
O objetivo passou a ser muito claro: não basta ter um roteiro bonito.
É necessário conseguir vender, reservar, operar, atender, receber, prestar contas e distribuir benefícios.
E fazer tudo isso sem descaracterizar o TBC.
É justamente essa combinação entre autenticidade comunitária e profissionalização da operação que pode permitir ao Cuniã crescer sem perder sua essência.
Governança: talvez o patrimônio mais importante construído até aqui
Um roteiro pode ser alterado. Um preço pode ser atualizado. Uma apresentação pode ser redesenhada.
Mas um destino de Turismo de Base Comunitária dificilmente se sustenta sem governança.
A Governança Turística da RESEX passou a assumir um papel estratégico na organização do turismo. É nela que a comunidade pode discutir responsabilidades, operação, comercialização, decisões coletivas, conflitos, relacionamento com parceiros e caminhos futuros.
O fortalecimento dessa estrutura já aparecia como prioridade nas oficinas de 2025 e continuou ganhando espaço nas ações seguintes.
Ao lado da governança, a Associação dos Moradores da RESEX Lago do Cuniã — ASMOCUN exerce papel fundamental. O ICMBio registra a associação como a organização comunitária representativa da população tradicional, enquanto as ações de turismo vêm sendo construídas com sua participação e articulação.
Essa relação é essencial.
A governança turística organiza especificamente o desenvolvimento e a operação do turismo; a Associação oferece o respaldo institucional comunitário e conecta essa atividade a uma estrutura coletiva já existente no território.
É assim que o TBC deixa de depender apenas de indivíduos e começa a construir continuidade comunitária.
Ninguém constrói um destino comunitário sozinho
Outro aprendizado importante dessa trajetória está na força da rede de parceiros.
O ICMBio possui papel indispensável como órgão gestor da Unidade de Conservação, garantindo que o desenvolvimento da visitação esteja conectado à conservação, às regras da RESEX e aos interesses das populações beneficiárias.
A Prefeitura de Porto Velho, hoje por meio da Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Lazer — Semtel, acompanha há anos a estruturação do turismo na região. Em 2026, Prefeitura e Sebrae formalizaram nova parceria destinada a fortalecer a inserção da RESEX no mercado turístico, com ações relacionadas à estruturação do destino, inovação, sustentabilidade e promoção.
A Fecomércio-RO, juntamente com estruturas como o Turismo Social do Sesc, também faz parte dessa caminhada e esteve presente em momentos importantes de capacitação, articulação e aproximação do Cuniã com visitantes e operadores.
E há um parceiro que vem assumindo papel especialmente intenso: o Sebrae em Rondônia.
Nos últimos dois anos, o Sebrae/RO tem mobilizado consultorias, capacitações, estratégias de mercado, promoção, governança, sustentabilidade, rodadas de negócios, articulações e conexões institucionais para acelerar a transformação do potencial turístico da RESEX em oportunidades concretas para a comunidade. A atuação está integrada também ao Sebrae Nacional e a diferentes frentes relacionadas ao desenvolvimento sustentável e à bioeconomia.
É uma soma de esforços.
Mas há algo que precisa permanecer muito claro: os parceiros apoiam; a comunidade protagoniza.
Essa é a diferença entre desenvolver turismo na comunidade e desenvolver turismo com a comunidade.
Agora, o Cuniã vai a São Paulo — e a comunidade estará no palco
Talvez poucas imagens representem tão bem a evolução dessa trajetória quanto a que está prestes a acontecer.
De 30 de setembro a 2 de outubro, São Paulo receberá a 53ª ABAV Expo, no Expo Center Norte. A organização projeta mais de 40 mil visitantes, mais de 2 mil marcas expositoras e dezenas de atividades de capacitação. Trata-se de um dos grandes ambientes brasileiros para negócios, relacionamento e conhecimento no turismo.
E o Cuniã não estará ali apenas representado por uma instituição.
A própria comunidade estará no palco.
No dia 30 de setembro, das 16h às 16h45, na Arena Ibirapuera, a presidente da Governança Turística da RESEX Lago do Cuniã, Scheila Barros da Silva, participará do painel “Turismo: O Poder de Conectar Pessoas e Promover Inclusão Social e Econômica”, ao lado de representantes do Sebrae Nacional, Sebrae Rondônia e de uma experiência comunitária do Ceará. Segundo a programação oficial, o debate apresentará experiências apoiadas pelo Sebrae que demonstram como o turismo pode valorizar comunidades, tradições culturais e gerar transformação social e econômica.
A própria ABAV apresenta Scheila como empreendedora da Pousada Caju Açu, liderança que atua no fortalecimento do turismo comunitário, da cultura ribeirinha, da geração de renda e da conservação do território.
Há uma simbologia poderosa nisso.
Depois de anos discutindo como receber visitantes, é uma moradora do território quem vai contar ao Brasil o que está sendo construído.
Isso é Turismo de Base Comunitária na essência.
Não é alguém falando pela comunidade.
É a comunidade falando por si.
Uma joia do turismo amazônico que não precisa ser inventada — precisa ser conhecida
Para o consultor Sidnei Varanis, que acompanha essa jornada desde 2025 e teve a oportunidade de continuar contribuindo em 2026, o Cuniã reúne características difíceis de fabricar em qualquer laboratório de desenvolvimento turístico: natureza preservada, cultura viva, autenticidade, identidade comunitária e pessoas dispostas a receber.
Por isso, talvez a melhor definição para o trabalho dos últimos meses seja mesmo lapidação.
Uma joia não se torna valiosa porque alguém a transforma em outra coisa.
Ela se torna ainda mais especial quando seu valor original é revelado.
E o Lago do Cuniã possui exatamente isso: um valor que já estava lá muito antes do turismo chegar.
O desafio é fazer com que a atividade turística ajude a conservar esse patrimônio, gere renda, fortaleça oportunidades para as famílias e dê visibilidade às pessoas que mantêm esse território vivo.
Está indo para Porto Velho? Reserve um tempo para descobrir outro lado da Amazônia
Quem visita Porto Velho pode fazer mais do que conhecer a capital.
Pode transformar a viagem em uma experiência amazônica profundamente diferente.
Conhecer a RESEX Lago do Cuniã é entrar em contato com uma comunidade tradicional, navegar por paisagens amazônicas, experimentar sabores, ouvir histórias e compreender que conservar a floresta também significa fortalecer quem vive nela.
A visita exige planejamento. O ICMBio informa que o acesso turístico à RESEX necessita de autorização prévia para visitação, além de recomendar organização antecipada dos deslocamentos e dos serviços comunitários.
Para conhecer os roteiros, experiências e informações do projeto, visite o portal oficial:
Vá a Porto Velho.
Conheça o Madeira. Conheça a cultura ribeirinha. Entre em contato com a Amazônia de quem vive a Amazônia todos os dias.
E permita-se descobrir o Cuniã.
Porque, depois de muitos anos de preparação, a comunidade está pronta para contar a própria história — e quer que o visitante faça parte dela, com respeito, curiosidade e consciência.
Do Lago do Cuniã para São Paulo. De Rondônia para o Brasil. E da Amazônia para o mundo.
Rondônia te espera.



































